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      No dia de amanhã vais ouvir o chamar longínquo… Vais parar de ler sem saber porquê e de olhos fechados agarrarás o peito. A dor sem palavras é o paradoxo e o horror dessa ideia que não te atreves a pronunciar… Esse som inominável: o Tetragrammaton que carregas no peito! Guardas segredos demasiado grandes, já mentiste sobre a dor e sobre a morte. Engoles com força o sopro lúcido, claro e divino, na vã esperança de que o néctar brilhante e numinoso prove que não és só um acumular empoeirado de vidas e de mortes. Rezaste muitas vezes pelo dia que Deus te falasse e dissesse que ninguém está sozinho, que não és culpada por tudo que já fizeste, e que haverá sempre uma boa razão para teres afastado de ti todos os que te amaram…

      É noite.
      Talvez já seja meia-noite e nas ruas só passam alguns carros. É assim o Porto a esta hora, os cães das moradias uivam e ninguém os ouve… A Lua vê-se apenas quando caminhamos no meio da estrada e no momento em que atravessamos a rua… Eu gosto de passear quando a cidade está assim! Anda-se com as mãos nos bolsos e com os olhos à frente, e se tivermos sorte nenhum estranho nos acompanha a casa.
      Antes de sair peguei nas chaves, no meu telemóvel, numa fotografia, num pedaço de papel dum maço Lucky Strike, num bloco e numa caneta… Uma nota de vinte euros no bolso para uma cerveja preta.

      O jardim que existe ao lado de minha casa não tem luzes e acho que é o que mais gosto nele. Durante a noite está sempre vazio, porque no seu canto mais escuro é fácil imaginar as reuniões secretas das pessoas que nunca queremos ver perto de nós… Aquela nova vaga de miúdos, com mais de trinta anos, vestidos com as mesmas roupas que usavam na primária. E dizem alguns que ir lá a esta hora é perigoso!? Não sei porquê, muitos, enquanto nos roubam, até são simpáticos!

NOITE DE SAMHAIN

VISITAS DO OUTRO MUNDO

Palavras do Rei das Fadas

Ó Homem triste -
Eu já ouvi todos os sons
Já me foram ditas
Todas as palavras -

És apenas um!,
Agora para ela nada…
E nenhum.

CHAMA A TI A JUSTA IRA!
INVOCA ESSE NOBRE TRAÇO
RECEBE DA DOCE FÚRIA
O VIL FORMATO.

4 de Setembro de 2009
Agreste de Capas

Seria bom se sonhasses
Com o grão e com as sementes…
Mas abandona o moínho.
Acompanha-me Sol.
Esquece-te Vento neste dia
  – Ó Vento a brisa tardia!
Que diz a Lua do alimento e do sustento?…
Há em mim a paz do relento!

para Eurídice
19 de Agosto de 2009
Agreste de Capas

NOITE DE SAMHAIN

VISITAS DO OUTRO MUNDO

Vozes nas Folhas
PRIMEIRO ESPÍRITO
I

 O homem que varre
As folhas secas do chão
Sabe que venho aí.
E não…
Não lho disse o vento que morri!

E caí, caí, caí…

Varre para longe
As minhas folhas de ti.
Sempre que uma cair
Saberás… estou a
í!

 
18 de Agosto de 2009
Agreste de Capas

 

Noite de Samhain – Visitas do Outro Mundo

Palavras do Rei das Fadas

  

Apaga, luz e lamparina…

Acaba dia…

Ó noite de magia

Serás a vida… e a alegria.

 

EM FRENTE ESPÍRITOS, EM FRENTE!

FAÇAMOS COM QUE GRITEM TODA A NOITE,

ESTREMEÇAM TODO O DIA

- CESSE A FALSA CALMA PRESUMIDA.

DIREI – NOITE…

JÁ É DIA!

 

13 de Julho de 2009

Agreste de Capas

 

A MULHER E O VENTO

Eu soube que os pássaros se calaram,

E senti As flores dançaram!

 

Sopra Vento… Espera um momento,

És tu Ó Vento,

És tu Mulher…

Ó Mulher… Espera um momento

Ó doce tormento…

 

Sossega… Espera…

Temos tempo!

 

E ouvir-me-ás sempre no silêncio

Ó Mulher… Quando soprar o Vento.

 

Para Eurídice

27 de Junho de 2009

Agreste De Capas

O GRITO DE ORFEU

Ó Hades e Perséfone!

Ó todo o Outro Mundo!

Sou o filho de Apollo e Calíope!

E rio-me, rio-me alto…

Rio para as águas sujas.

Rio para os cadáveres e rio para as Moirae!

HADES?!

Eu sou Orfeu!

Ó figuras horripilantes estendei as mãos!

Ó bocas translúcidas e imensas,

Ó filhos de muitas mães:

Eu serei o leite para todos Vós:

- Ó Sub Mundo ouve a minha voz!

 

Ó Hades e Perséfone…

Ó todo o Outro Mundo…

Eu sou Orfeu e vim pela minha esposa.

 

Eurídice,

Não morro por ti, nem tu morrerás –

Só desta vez, eu espero antes de me virar para trás!

 

para Eurídice

19 de Junho de 2009

Agreste de Capas

D’ouro

Quando o vinho navega o Douro,

segue-o uma bruma…

 

No Douro não há barqueiro.

No Douro não é Tua.

Só a alma… a lua… e a bruma.

 

Eu vou tardar a água escura!,

Em ti Douro haverá só doçura.

 

                                   13 de Junho de 2009

                                       Agreste de Capas

Uma Jovem

Maus Dias

 

Ainda tenho as tuas coisas no meu quarto, sabes? Não deixo que lhes mexam e olho para elas de vez em quando. As cartas de papel lacrado… Eu não estava habituada a receber cartas, nem a receber presentes.

Tenho tudo o que é teu numa caixa em cima da minha secretária, e ainda não a arrumei. Eu não te dei nada… Apercebi-me disso ontem. Queria que olhasses para algo e te lembrasses de mim e aí apercebi-me que não tinhas nada para onde olhar…

Eu não digo a ninguém mas no fundo tenho vergonha. Se for preciso digo mal de ti. Sim, eu digo Ele é muito imaturo… disse-o ainda a semana passada com um encolher de ombros desinteressado. Então e quando conversava com ele… sinceramente acho que às vezes não percebia uma palavra do que eu dizia!

            Sorri muitas vezes a olhar para cima enquanto abanava a cabeça, e algumas vezes ri-me. Insultei-te também.

E numa outra ocasião bastou-me ignorar-te.

Sempre que aí passo evito olhar, ou então forço-me. Há duas coisas que podem acontecer se eu passar de carro junto ao café barcarola e olhar pela minha direita… Ouço-me a falar com a voz a tremer, e sei que corres atrás de mim quando me venho embora sem te despedires. E aí lembro-me da expressão no teu rosto quando entrei no carro sem te ouvir ou olhar. Há um silêncio terrível quando me lembro…

Eu gosto da dor, está cheia de certezas - É verdade, é por isso que sou cobarde! Porque quem sofre não tem medos. Eu tenho mas não os enfrento. Nunca olho para a direita, prefiro conversar com o meu pai no carro, ou então fixar um ponto no banco da frente até que já não te consiga ver no retrovisor.

            Eu gosto de sofrer. Por favor não me voltes a ver.

 

Para Maçã Verde

4 de Junho de 2009

Agreste De Capas

O Túnel

 

Ontem vi um túnel amarelo

Que dos lados tinha faixas negras feitas de pano.

 

É fútil?

Ou louco?

Aquele que segue uma voz que não lho ordena…

 

A frase soou com o meu primeiro passo.

Mas avancei.

 

Nunca soube que um túnel aparecia quando esperamos

Porque os meus olhos sempre estiveram fechados.

Eu caminho rua acima

 

E hoje cá está ele, amarelado

E escuro com véus na parede.

 

Se eu fechar os olhos e inspirar,

Consigo adivinhar a humidade

Atrás de cada peça de tecido,

 

E com cada gemido tenho na boca

Um suor que não é meu!

 

Há suspiros e vogais soltas,

Um grande mural negro de corpos e gemidos

Debaixo de luzes amarelas!

 

Há um

Oh

E um

Ah,

Um grande

UUI!

Uuuh… Oooh… AAAAHHHH…

 

Mantenho os olhos fechados;

Eu procuro muitas vezes o sossego no escuro,

 

Mas há sons e há cheiros,

Mesmo que não hajam luzes…

Não vás.

 

Abro os olhos. Todos aqueles corpos

Jovens e húmidos me chamam!

 

Ao lado deles falas tão baixo

Que tenho medo de não ouvir.

Quando as luzes se apagam só me resta rir.

 

30 de Maio de 2009

Agreste de Capas

O Nome

 

Vem a mim Ó velhaco de trapo sujo,

Nariz gordo e perna torta…

Eu chamo-te,

Ó Deus!

Ó Coisa!

 

- ESPÍRITO IMPACIENTE QUE ME QUERES?

 

Há na noite uma paz que não chega a mim,

Ainda que eu peça…

É ela.

E é assim.

 

Cumpre!

Obedece.

Acata-me…

 

A garra de dedos amarelados e torcidos apodera-se do meu pescoço…

Tão rápido…

Ai o estremecer frio. Mais que a pressão no meu pescoço,

O salivar seco da minha garganta sufoca-me…

E Ele olha-me,

Frio e vil!

 

- QUEM?

 

Ai o Seu bafo…

 

- QUEM??

 

Junto ao meu rosto o Deus pediu o nome ainda mais uma vez.

 

- QUEM???

 

Ela. – disse eu.

 

Então o Deus deu o seu último fôlego na minha boca,

E quando acordei

O meu Amor morreu.

 

17 de Maio de 2009

Agreste De Capas

Sorrisos

 

Pousa as pálpebras.

 

Gosto tanto do sorriso que os meus dedos

Te desenham,

 

O bigode…

A barba…

 

Os meus olhos estariam abertos mais vezes

Se o rosto fosse teu e não meu.

 

Sinto que estou sem ver há tanto tempo…

 

Tenho saudades…

E tenho medo.

 

Temo que quando acordar prefira o teu sorriso ao meu.

 

Para Maçã Verde

 6 de Maio de 2009

Agreste De Capas

Para Maçã Verde

Fala-me.

Conta-me…

Narra-me, pois esta é a minha terra.

Por que nome me reconhecerias melhor?

Vive comigo e esquece as apresentações.

És Gaia e eu sou Porto,

Ainda que a distância te impeça de apertar a minha mão, beijá-la-ias?

É por não existir nada entre nós que corre o rio.

Sim eu recebo. E sim, eu dou.

De mim para ti há a mesma água,

As mesmas pessoas dizem as mesmas coisas…

 

Que não hajam mais pessoas!

Que não hajam mais barcos!

 

Desejo que as pontes caiam

E as águas partam,

Para que as minhas casas e ruas

Se juntem às tuas.

 

Oh a Rua das Flores…

E a Rua do Salgueiral,

a Avenida de Fernão de Magalhães…

Aí não há rios nem pontes

E é uma pena que as ruas não unam as casas.

para Maçã Verde

Maio de 2009

Agreste De Capas

 

Uma Jovem – maus dias

Uma jovem

Maus dias

 

Há dias em que acordamos e ninguém nos ouve. Onde está esse pãozinho fresco logo pela manhã?

Quando eu saio da cama há duas coisas em que penso: Ainda não são horas porque não há pão à espera! Oh sim e quem mo traz? E quem me veste? E quem me fala?

Se está silêncio é porque ainda é cedo…

Não tenho despertador, nem no telemóvel. Tenho pão! E depois o leite, e o trabalho, e o meu pai e a minha mãe, e os meus colegas, e a rua… e o relógio. Sempre o relógio! Já serão seis? Já posso sair?

- Porque me olham assim?

 

Chego a casa e sei sempre que a porta não fecha! E depois vem aquela vozinha: – Já chegámos.

Sei que há sempre esta repetição monocórdica assim como sei que a porta não fecha e que só preciso de me levantar quando há pão.

- Ai uma mensagem! Ai um toque!

Ai ai…

 

E acordo. E o pão, e o leite, e o trabalho e o relógio, e as seis, e a rua… E a casa. A maldita porta. “Chegámos!

E a mensagem e o toque.

Eu acordo, mas não durmo. A mensagem… o toque…

Eu fecho os olhos, mas não descanso porque não há nem mensagem nem toque. Sem eles p’ra que quero eu o pão?

 

para Maçã Verde

Abril de 2009

Agreste De Capas

dezembro de 2008

Quem és neste sonho?

De quem este nome?

Sossega o esbelto esplendor,

Repousa ó folha,

Aqui. Ou ali.

 

Estremece só mais uma vez,

Eu espero,

 

Ó folha.

Ó Árvore…

Ó Senhora de olhos verdes!

 

Agreste de Capas

A Terceira Palavra

A TERCEIRA PALAVRA

 

I

 

Fosse eu uma gaivota.

Fosse eu uma rocha.

A brisa e o vento não me parariam,

antes pegar-me-iam sem o caminho até casa os amolecer.

Sim sou esse tipo de homem, Aquele

que comanda os ventos e as marés,

não da praia, nem do mar…

Leva-me daqui, pelas planícies e dunas até casa!

A minha é fácil de achar,

Daquela árvore são três passos em frente até à primeira colina,

Quando o Ar disser ao teu cabelo a direcção da segunda, 

Corre e grita que me amas.

Chegarão a ti duas palavras,

Se descobrires uma terceira

Encontrarás alguém à tua beira…

 

II

 

Mas, se eu não te ouvir, grita.

Grita! Grita! Grita…

Grita que me amas mais uma vez,

Até o pássaro, a onda, a árvore, a colina e a nuvem

Não te poderem mais ouvir.

Chora e ri por mim…

 

III

 

Eu vivo na terceira colina.

E tu?

 

 12/05/08

Agreste De Capas

Mãos Grandes

Mãos grandes

 

Minhas,

Tuas…

arfas numas roupas.

 

Suas…

 

Tira-a fora!

Rompo-as,

dentes no meu pescoço…

 

Ffff, Recuas…

 

Desliza as tuas unhas pelo meu pescoço.

Junto aos meus lábios, tuas costas, bacia,

E aí em baixo

 

Suas…

 

- Mãos grandes.

Ai, sou tua!

Aai…

 

Ai Lua.

 

Agreste De Capas

Louco?

Selvagem?

Bárbaro erudito? É isso que me pensas?

Sim sou tudo isso!

Uma trindade masculina

esperando a matriarca –

Beleza selvática primordial

aguardando fixa

a execução e feitura,

agir fazer e desempenhar

do pecado matrimonial.

 

Acto original.

Pelo Deus que formamos…

 

Pecámos… Amamos.

 

Agreste De Capas