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Noite de Samhain – Prólogo

NOITE DE SAMHAIN
VISITAS DO OUTRO MUNDO

Prólogo

      O herói da minha infância morreu numa praia de pedras vermelhas solenes. Fui eu que o despi. Fui eu que mostrei a sua pele nua às vassouras embrumadas da noite e do amanhecer, para que o banhassem duma água mais limpa do que a areia, e lhe humedecessem o sangue dos olhos secos com terra. Troquei-lhe a tristeza por um céu escarlate em que as gotas são sal. Chorei lágrimas mais pesadas do que as dele e criei um mar arroxeado no mundo de terras secas vermelhas…
      “Inspira a doce neblina que escurece o mar e clareia o dia, porque se não nos mexermos viveremos para sempre, seremos gigantes… o Ar que se torna Vento, seremos relva que respira sem tempo!” 
      Conheci o silêncio dos olhos fechados e da cabeça baixa! Vede-me com capa escura ajoelhado na areia. Dai-me esse ar de crente testemunha com cabelos loiros, orando e procurando não um Deus mas um símbolo. Deus é coisa pequena, um símbolo reflecte os meus valores e não os dele. Fiz a minha prece mais sincera, porque só somos verdadeiramente honestos quando não nos resta esperança. De joelhos respirei a virilidade e a humildade, o majestoso poder masculino que o cadáver nu me inspirava porque a noite era longa, longa o suficiente para que a Morte me atraísse. Todo aquele odor intenso dos fluidos jovens putrefactos marcou o seu lugar no meu cérebro, “Lembra-te disto, lembra-te disto” dizia ele, enquanto o seu rosto era coberto de areia. 
      E de todos os lados surgiram, grotescas, mil vezes dez milhares de coisas assustadoras grunhindo, de fuças embeiçadas avançando, homens de vozes guturais cavando. Faziam buracos a cada passo que davam, uma enorme procissão de trabalhadores aleijados que se arrepende de todos os pedaços de terra. Não traziam instrumentos, os seus utensílios eram as mãos e bocas deformadas com que nos atiravam areia.
      Vieram de todos os lados e não houve fuga.  
      Retirei resignado a minha capa… Deitei-me nu por cima do cadáver, e enquanto nos enterravam com areia sussurrei-lhe ao ouvido “Talvez mortos continuemos gigantes…”

      O herói da minha infância morreu numa praia de pedras vermelhas solenes. Na sua laje lê-se apenas “Inocência”…

Noite de Samhain

NOITE DE SAMHAIN

VISITAS DO OUTRO MUNDO

Ó Homem triste -
Eu já ouvi todos os sons
Já me foram ditas
Todas as palavras -

És apenas um!,
Agora para ela nada…
E nenhum.

CHAMA A TI A JUSTA IRA!
INVOCA ESSE NOBRE TRAÇO
RECEBE DA DOCE FÚRIA
O VIL FORMATO.

4 de Setembro de 2009
Agreste de Capas

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